No 11 de Setembro, a morte chegou como um trem desgovernado, diz cineasta

Ao iG, Jules Naudet, que capturou a imagem do 1º choque contra o WTC, lembra o terror nas torres e conta como aquele dia mudou sua vida

Carolina Cimenti, de Nova York, especial para o iG |

Ele não só sobreviveu ao desabamento das Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC) no 11 de Setembro de 2001. O cineasta francês Jules Naudet os filmou. O primeiro, da Torre Sul, de dentro do lobby da Torre Norte. O segundo, a metros de distância enquanto corria para se proteger.

Carolina Cimenti/especial para o iG
Jules Naudet em seu escritório em Manhattan. Ele e seu irmão Gedeon tem o único registro em vídeo do primeiro choque contra as Torres Gêmeas do WTC
A famosa (e única) imagem nítida do primeiro choque nas torres do WTC foi capturada por acaso por Naudet. Na manhã do 11 de Setembro, ele gravava um bombeiro que havia sido chamado em um endereço perto dos prédios para examinar um vazamento de gás.

No vídeo (veja abaixo), enquanto Naudet filma o bombeiro, ouve-se o barulho do voo 11 da American Airlines cruzando o céu. A câmera vira rapidamente para cima e consegue registrar o impacto da aeronave contra os andares 93 e 99 da Torre Norte às 8h46 daquela terça-feira.

Com a câmera rodando, Naudet, então com 28 anos, seguiu os bombeiros para o WTC, onde conseguiu gravar os efeitos do colapso da Torre Sul (atingida pelo voo 175 da United Airlines às 9h03) de dentro do lobby da Torre Norte. Enquanto Jules ficou a maior parte do tempo na primeira torre atingida, seu irmão Gedeon acompanhou a movimentação no corpo de bombeiros ou entre a multidão reunida perto da área do WTC.

Antes dos ataques, os dois tinham a intenção de produzir um documentário sobre a vida dos bombeiros principiantes em Nova York. A filmagem acabou se transformando em "11/9", o mais completo registro em vídeo do maior atentado terrorista em solo americano da história dos EUA.

Perto do aniversário de dez anos dos ataques - que contou com os dois aviões contra as Torres Gêmeas, um que atingiu o Pentágono e outro que caiu quando os passageiros tentaram retomar seu controle dos terroristas -, Jules Naudet conversou com o iG em seu escritório em Manhattan.

Durante 40 minutos, o documentarista fumou quatro cigarros, contou em detalhes o que viu dentro do WTC e como aquele dia mudou sua vida para sempre. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

iG: Por que vocês filmavam um documentário sobre bombeiros?
Jules Naudet: Temos um grande amigo, James Hanlon, que é ator e bombeiro em Nova York. Ele sempre nos contava as histórias maravilhosas dos bombeiros, que vivem como se fossem uma família. Eles comem juntos, dormem no mesmo quarto, protegem-se, passam por situações de risco. Então um dia, depois de ouvir várias histórias de James, eu e Gedeon decidimos fazer um documentário sobre a vida deles. Entramos em contato com o Departamento de Bombeiros de Nova York e recebemos carta branca para gravar. Fomos os primeiros a ter esse privilégio desde 1975, quando a BBC fez um documentário chamado "The Bronx is Burning" ("Bronx em Chamas", em tradução livre). Mas nunca pensamos que acabaríamos filmando um ataque terrorista.

Vi várias pessoas sendo queimadas vivas, gritando. Elas foram atingidas pelo combustível do avião, que invadiu os elevadores. Era uma cena tão horrível e tão desesperadora que nem tive coragem de filmar aquilo tudo

iG: O que você pensou quando viu o avião batendo na primeira torre?
Naudet: No início achei que tinha sido um acidente horrível. Nem imaginei que fosse um ataque. Fomos imediatamente para a Torre Norte, eu com o corpo de bombeiros que acompanhava desde junho de 2001 e meu irmão com uma outra equipe. E pensava que aquele seria uma dia longo, que muitas vidas seriam perdidas, mas se tratava de um incêndio, de um acidente, e os bombeiros iriam apagá-lo, como fazem sempre. Até aquele momento, havia vivido uma vida muito protegida, mas, assim que chegamos à primeira torre, deparei-me de forma violenta com a morte. Assim que entramos, vi várias pessoas sendo queimadas vivas, gritando. Elas foram atingidas pelo combustível do avião, que invadiu os elevadores. Era uma cena tão horrível e tão desesperadora que nem tive coragem de filmar aquilo tudo. Era como se não pudesse aceitar rever aquelas imagens nunca mais na minha vida. Desde aquele momento, a sensação de tragédia e da morte muito próxima não me deixou mais por todo aquele dia. Mesmo assim, continuava pensando: estou com os bombeiros, eles sabem o que fazem, apagarão o fogo e salvarão vidas aqui. Além disso, o fogo estava a vários andares acima da minha cabeça; não me sentia em perigo.

iG: Como você conseguiu continuar filmando mesmo com o caos e o medo?
Naudet: Acho que fiz isso para tentar me proteger. Não foi um ato de profissionalismo ou heroísmo. Foi uma forma de sobreviver naquele horror. Pensei assim: Ok, se eu me concentrar nisso, dará tudo certo. Observar o que acontecia pelo visor da câmera era como se não estivesse acontecendo comigo. Era como se fosse uma pequena janela da qual estava olhando; foi um mecanismo de defesa. No momento em que eu desligasse a câmera, desmoronaria. Então continuei. O chefe do meu esquadrão, Joseph Pfeifer, me disse para ficar sempre ao lado dele quando entramos na torre. Fiz exatamente como ele mandou. Confiei 100% nele. Foi a melhor coisa que poderia ter feito porque ele salvou a minha vida.

Assista à gravação de Naudet que mostra o primeiro choque contra as Torres Gêmeas:

iG: E quando a Torre Sul desabou, percebeu o que estava acontecendo?
Naudet: Não. Achamos que era um desabamento parcial, um andar ou dois desabando sobre outro, mas não fazíamos a menor ideia do que estava acontecendo, que 110 andares vinham abaixo sobre as nossas cabeças. Tudo começou a tremer e ouvimos um barulho horrendo. Era como se a morte chegasse como um trem desgovernado. Comecei a correr para a escada rolante que ficava entre as duas torres, seguindo os bombeiros. Depois parei de correr e me abaixei... que sentido fazia correr de um edifício de 110 andares? Tinha certeza de que morreria, era algo inevitável, então fiquei sereno, calmo. Ok, é isso então. Mas daí o barulho parou e ficou tudo completamente silencioso. Ok, disse para mim mesmo, não morri. Estava tudo escuro, completamente escuro. Então passou um longo tempo, e começamos a nos reagrupar. Acendi a luz da câmera e descobrimos o corpo do padre do departamento do corpo de bombeiros. Ele foi atingido por um pedaço do prédio, que quebrou o seu pescoço. Tínhamos de tirá-lo daquele lugar, mas não podíamos fazer isso pela saída mais próxima porque ainda tinham destroços da torre e corpos de pessoas caindo. Finalmente conseguimos sair pelo outro lado e começamos a agrupar os bombeiros novamente para voltar ao WTC.

(Após o colapso da torre), a nuvem de poeira começou a baixar, ficar totalmente sufocante, e o silêncio tomou conta de tudo, como depois de uma grande nevasca, quando a neve abafa todos os barulhos

iG: E nesse momento estavam conscientes de que a Torre Sul tinha desmoronado?
Naudet: Não sabíamos que ela não estava mais lá. E, quando saímos, tinha uma nuvem de fumaça, estava tudo escuro, então vimos a segunda torre (a Norte) e achamos que estava tudo bem. Pensei que a outra torre estivesse atrás da fumaça. Depois, quando vi as imagens que gravei, veem-se pedaços do que sobrou do desabamento, os ferros dos primeiros andares, mas racionalmente aquilo não era possível, então nem considerei o fato de ela ter desabado. As pessoas assistindo pela TV sabiam mais do que a gente ali no lugar. E, a essas alturas, os rádios dos bombeiros não funcionavam, as linhas estavam completamente congestionadas e era um caos. E, quando estávamos para voltar ao prédio, o mesmo barulho de antes recomeçou, um estrondo sem fim que levantou uma nuvem de poeira e fumaça gigantes. Mas, dessa vez, consegui ver que a torre inteira desabava. Então começamos a correr, fugir daquele barulho. Joguei-me entre um carro da polícia e uma van da TV. Botei a câmera (ainda gravando) no chão e senti alguém se jogar sobre mim. Era o chefe Pfeifer tentando me proteger. Afinal, eu vestia somente uma camiseta e um jeans. Ele estava mais protegido com o uniforme e o capacete. Então a nuvem de poeira começou a baixar, ficar totalmente sufocante, e o silêncio tomou conta de tudo novamente, como depois de uma grande nevasca, quando a neve abafa todos os barulhos. Devagar, o chefe Pfeifer se levantou, ajudou-me a levantar e ouvimos disparos em algum lugar próximo. Claro que pensamos que, agora que os edifícios tinham desabado, quem quer que fosse responsável por tudo começaria a nos atacar por terra. Era como uma guerra. Mas depois descobrimos que se tratava de um policial que, sufocado com a poeira, atirou para abrir uma janela e entrar num edifício para se proteger.

Carolina Cimenti/especial para o iG
O cineasta Jules Naudet é até hoje amigo do bombeiro que salvou sua vida durante os ataques contra as Torres Gêmeas do WTC, em Nova York
iG: E o seu irmão?
Naudet: Nesse momento tinha quase certeza de que ele estava morto. Saí perguntando para todos que via, todos os bombeiros, se haviam visto um cara francês com uma câmera na mão, mas ninguém tinha coragem de me olhar nos olhos. É como se ninguém quisesse reconhecer o que parecia óbvio. Ele estava na torre. A torre não existe mais. Ele obviamente está morto. (Gedeon, porém, nunca chegou a ir às torres, pois estava com um bombeiro que só foi enviado ao WTC depois dos desmoronamentos. Gedeon também pensou que Jules houvesse morrido). Foi então que desliguei a câmera. Aí desmoronei. Comecei a chorar compulsivamente. Nem eu nem os outros bombeiros queríamos voltar para a nossa sede, porque tínhamos medo de descobrir que todos os outros haviam morrido no desastre.

iG: Onde estavam seus pais?
Naudet: Em Paris. Meu pai estava em um almoço de trabalho e, assim que ouviu a notícia de um garçom, correu para casa, onde a minha mãe estava. Eles passaram horas olhando a TV em silêncio, pois, sabendo como somos e o que estávamos fazendo, tinham certeza de que estávamos lá. Finalmente, depois de umas três horas, consegui telefonar para eles. E obviamente até hoje eles agradecem o chefe Pfeifer, às vezes eles almoçam juntos aqui em Nova York. Pfeifer também é muito presente na minha vida. Nos vemos pelo menos uma vez por mês para almoçar ou conversar.

iG: Depois do 11 de Setembro, os bombeiros em Nova York foram considerados verdadeiros heróis. Concorda com isso?
Naudet: Sim, com certeza. Apesar de eles odiarem ser chamados de heróis e insistirem no fato de que apenas faziam o trabalho deles, foram totalmente heroicos naquele dia, fazendo de tudo para salvar vidas, continuando a subir nas torres mesmo depois que uma delas já havia desmoronado. Acredito que é um trabalho para o qual algumas pessoas são “chamadas”, têm a vocação. É parecido com a vocação de ser padre; é para ajudar as pessoas acima do seu próprio bem-estar. E tudo isso por um péssimo salário, pouco reconhecimento, muito tempo longe da família. Ao mesmo tempo, é o melhor trabalho do mundo porque é como estar sempre com um grupo de amigos. É uma verdadeira família.

Quando vejo Gedeon, falo: filmei tudo! Porque achei que ele ficaria bravo se não tivesse filmado. Mas ele, que achou que eu não voltaria mais, me abraça. E eu choro por tudo o que passei e tudo o que vi naquela manhã

iG: Uma das cenas mais bonitas do documentário é quando você e Gedeon se reencontram. É muito emocionante.
Naudet: Minha mãe ama aquela cena também (risos). Foi um amigo nosso que trabalhava ao lado da sede do esquadrão de bombeiros com o qual estávamos que filmou. Ele foi lá ver se estávamos bem e nos gravou de surpresa. Quando vejo Gedeon, logo falo: filmei tudo! Porque achei que ele ficaria bravo se não tivesse filmado. Mas ele, que achou que eu não voltaria mais, me abraça. E eu choro por tudo o que passei e tudo o que vi durante aquela manhã.

iG: Essa experiência fez alguma coisa mudar na sua vida?
Naudet: Claro que sim. Na época estava noivo, e nos dias seguintes, enquanto tentava entender o que havia acontecido, me perguntei: o que estou fazendo da minha vida? Por que estamos esperando? Vamos casar! Eu e a minha esposa nos casamos em junho de 2002, na sede do corpo de bombeiros com quem convivi, com uma grande celebração para eles e para as nossas famílias. As nossas alianças foram entregues num capacete... foi um dia muito especial.

iG: Quando passa um avião no céu, você pensa no 11 de Setembro, você olha?
Jules: Sempre. Sempre, sempre, sempre, sempre.

    Leia tudo sobre: wtc11 de setembronova yorkjules naudettorres gêmeas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG