Mudança de agenda salva brasileira no 11 de Setembro

Cristina Arduino não estava no WTC durante os ataques porque início de seu trabalho no local foi adiado; assista à sua entrevista ao iG

Carolina Cimenti, de Nova York, especial para o iG |

Carolina Cimenti/especial para o iG
A brasileira Maria Cristina Arduino, que escapou por pouco dos ataques do 11 de Setembro, é vista perto do canteiro de obras no Marco Zero
Na semana anterior ao 11 de Setembro , Maria Cristina Arduino estava vibrando. Depois de um ano e meio morando em Nova York, ela estava perto de conseguir seu primeiro grande emprego nos EUA, como assistente de contabilidade no restaurante Windows on the World, no topo da Torre Norte do World Trade Center (WTC).

Inicialmente, Cristina começaria a trabalhar na segunda-feira de 10 de setembro de 2001. Mas, na sexta-feira, o plano mudou: seu início oficial no trabalho seria o dia 12, ficando programado que ela jantasse no restaurante no dia 11 para conversar com o chef de banquetes. A pequena mudança na agenda fez toda a diferença na vida da brasileira de 53 anos de Tremembé, São Paulo.

“Na manhã do dia 11 de setembro, tomava banho em casa, sem saber de nada, quando a minha cunhada ligou do Brasil”, contou Cristina ao iG .

“Onde está Cristina, ela morreu, ela morreu?” O marido da paulista, que havia atendido o telefone, explicou que não, ela estava viva, tomando banho. “Mas ela não estava no WTC?”, perguntou a cunhada aflita. “Não, nós vamos jantar lá esta noite”, respondeu. Foi aí que a cunhada se deu conta de que Cristina e seu marido ainda não sabiam de nada: “Não, vocês não vão mais porque o WTC está no chão!”

Passada a confusão inicial, Cristina e seu marido ligaram a televisão. “Aquilo não era real para nós, aquilo era um filme. Foi um choque muito grande, e foi aí que passou pela minha cabeça: eu estaria lá! E o nosso amigo que está lá? Será que está bem?”

Jupiter Yambem, o chef de baquete do Windows on the World, era muito amigo do marido de Cristina. Ele morreu com a queda das Torres Gêmeas, e partes do seu corpo foram encontradas dias após os ataques. Uma semana depois do 11 de Setembro, Cristina participou do enterro de Yambem, que também poderia ter sido o seu.

“Demorou um pouco para que me desse conta de que estaria morta se não tivéssemos mudado os planos. Porque os primeiros dias foram muito complicados, estávamos no meio de uma guerra. Moro entre o aeroporto JFK e o La Guardia, então vejo aviões o tempo todo. Mas, na manhã do 11/9, não via aviões de linha, só caças americanos, como se fosse uma guerra, zum, zum, zum... um atrás do outro. Era uma guerra”, disse.

Ela conta que as semanas e os meses seguintes aos ataques foram muito difíceis porque a cidade parou completamente. Depois de passar 24 horas na frente da televisão, as pessoas estavam em choque. “Um dia fui com o meu marido até Union Square, onde as pessoas colocavam as fotos dos desaparecidos. Aquilo parecia um cemitério... fotos e fotos espalhadas por toda a praça, e recados: ‘Se você viu essa pessoa, por favor entre em contato.’ Um desespero total, velas... e foi aí que realmente caiu a ficha: a minha foto poderia estar ali, ela seria mais uma nesse monte de fotos!”, afirmou emocionada.

AP
Jupiter Yambem, chef de banquetes do Windows on the World, da Torre Norte do WTC, é visto durante seu casamento (foto de arquivo, sem data)
Cristina frequenta a igreja católica perto da sua casa e conta que diariamente, por quase dois anos, houve enterros das vítimas dos atentados, pois restos mortais eram identificados a cada semana. Ela levou nove anos para se permitir voltar ao Marco Zero (local onde ficavam as torres). Quando finalmente foi até lá, ficou em choque. “Via aquela área como um verdadeiro cemitério. Os corpos ou restos mortais ainda estão lá, sob a terra, embaixo das novas construções.”

Segundo Cristina, os ataques fizeram com que os americanos acordassem e vissem que não estão sozinhos no mundo. Ela também diz ter aprendindo uma lição importante com o 11 de Setembro.

“Aprendi a conviver com todos os tipos de pessoas. Porque no Brasil, principalmente em cidade pequena, tem aquela coisa de preconceito, não gostar de alguém porque é crente ou por diferença de religião. Fazia um curso de inglês nos meus primeiros anos em Nova York, e o meu melhor amigo era muçulmano. No dia seguinte aos ataques, fui para a sala de aula, e ele chorava e me abraçava. Ou seja, não é uma questão de religião, os ataques foram mais uma questão política, econômica... ali acabaram as barreiras que eu tinha”, disse.

Mas e agora, dez anos depois, passou o susto? Se lhe oferecessem um emprego no novo WTC, você aceitaria? “Não, de forma alguma. Não aceitaria de jeito nenhum!”

Assista à entrevista da brasileira Cristina ao iG:

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