Morte de Bin Laden expõe nova inteligência após 11 de Setembro

Depois dos ataques de 2001, EUA tiveram de reconhecer papel de grupos não-estatais e melhorar comunicação entre agências

Fernando Serpone, especial para o iG |

A operação militar que resultou na morte do líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden , na cidade paquistanesa de Abbottabad em 2 maio é mais do que a vingança americana contra o mentor do 11 de Setembro . A ação, lançada por comandos do grupo de elite Seal, exemplifica as mudanças que tiveram de ser implementadas na forma de atuar da inteligência e do Exército americanos após os ataques terroristas de 2001.

Até os piores atentados realizados em solo americano, Washington ainda acreditava que suas maiores ameaças viriam de Estados. O motivo era que a Guerra Fria (1947-1991) , em que a União Soviética desempenhou o papel de inimigo onipresente dos EUA por quase quatro décadas, havia acabado apenas dez anos antes. Além disso, durante esse período os grupos terroristas não eram organizações totalmente independentes, sendo vinculadas a Estados párias, como Líbia e Irã.

Os ataques, portanto, forçaram os EUA a mudar sua estratégia para o combate ao terrorismo e à insurgência ao confirmar que os grupos não-estatais representavam a nova ameaça contra a segurança e os interesses americanos.

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O hall principal da sede da CIA (Agência de Inteligência dos EUA) em Langley, Virgínia

“Depois do 11 de Setembro, reconheceu-se que mesmo 19 homens armados apenas com estiletes, de maneira não convencional, poderiam atingir nosso país, matar milhares e causar grande preocupação”, disse ao iG John Parachini, especialista em terrorismo e diretor do Centro de Pesquisas sobre Políticas de Inteligência da Rand Corporation.

Segundo o especialista, a atenção em organizações independentes de governos e com uma hierarquia mais horizontal criou uma demanda maior por inteligência, operações, equipamentos e treinamento particulares. “Há uma transição de forças militares mais convencionais para forças de operações especiais, como as que atuaram na morte de Bin Laden”, afirmou Parachini. “É muito diferente da inteligência usada na fronteira da Alemanha Oriental (comunista), preparando-se para conter ou combater um ataque soviético à Alemanha Ocidental (capitalista).”

Também de acordo com Parachini, a natureza da inteligência na era moderna se estabelece sobre todas as formas de informação - fontes abertas, inteligência civil, geoespacial, humana e posicionamento militar ao redor do globo. “Com a morte de Bin Laden chega-se à importante conclusão de que, para encontrar um indivíduo em um grande país, escondido sob várias medidas de segurança, é necessária uma grande colaboração entre agências de inteligências e forças militares e de segurança.”

Partilha da informação

Desde o ano passado, 20 dos 30 líderes da Al-Qaeda identificados pela inteligência americana foram mortos. Além de deixar em evidência parte da estratégia dos EUA contra o terrorismo, os números refletem também uma maior colaboração entre as diferentes forças de segurança e inteligência dos EUA entre si e com outros países.

O aumento da comunicação no aparato de inteligência também é uma mudança causada pelo 11 de Setembro, já que a falta de diálogo entre órgãos como a CIA (Agência de Inteligência dos EUA) e o FBI (Polícia Federal americana) até 2001 é apontada como um dos fatores que impediram os EUA de frustrar os ataques.

Segundo Robert Baer, ex-agente da CIA e autor de livros como “See no Evil” (Não Veja Nenhum Mal, em tradução livre), havia informação suficiente para evitar os atentados. “Houve uma falha da estrutura interna americana”, disse.

Constatando esse problema, o Congresso americano criou em 2005 o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI, na sigla em inglês). O diretor atua como chefe da Comunidade de Inteligência e é o principal assessor do presidente para assuntos relacionados à segurança nacional. Seu objetivo é comandar a integração entre as agências de inteligência civis, militares e estrangeiras. O cargo é ocupado atualmente por James R. Clapper, que já respondeu por diversos órgãos de inteligência dos EUA.

Mas, apesar de a integração ter melhorado, inclusive com outros países, ainda há muito progresso a ser feito, disseram os especialistas ouvidos pelo iG .

Segundo Bruce Riedel, ex-agente da CIA e pesquisador de relações internacionais do Instituto Brookings, em Washington, “o ataque frustrado do Natal de 2009 mostrou que a partilha de inteligência, mesmo que aprimorada, ainda tem de avançar antes de podermos estar realmente confortáveis”.

A declaração faz referência ao fato de o nigeriano Umar Faruk Abdulmutallab, então com 23 anos, ter conseguido embarcar em um voo de Amsterdã a Detroit em 25 de dezembro daquele ano apesar de seu próprio pai ter alertado as autoridades sobre seu ideário terrorista. Abdulmutallab não conseguiu explodir o avião por uma falha no dispositivo que levava em sua cueca.

De acordo com o ex-agente da CIA Baer, um empecilho que permanece para a divisão de dados entre a CIA e o FBI é o fato de que informações deixam de ser material de inteligência e tornam-se públicas ao ser apresentadas em um julgamento. Isso desencorajaria a CIA a repassar informações secretas ao FBI, pelo temor de que sejam apresentadas como evidência em uma corte judicial.

James Robbins, pesquisador sênior de segurança nacional do American Foreign Policy Council (Conselho de Política Externa Americana), think-tank em Washington, aponta outro entrave para a colaboração - “a segurança da informação”. “Quanto mais informação é partilhada, maior o potencial de vazamento.”

Apesar disso, os especialistas reconhecem os avanços na inteligência desde o 11 de Setembro, com Robbins chegando a afirmar que o governo americano nunca teria realizado uma operação como a que matou Bin Laden antes dos ataques de 2001.

Prestes a entrar em uma corrida presidencial, com 54% da população contra a Guerra do Afeganistão, a morte do principal líder da rede terrorista ocorreu em boa hora para o presidente Barack Obama. No final de junho, ele anunciou o cronograma de retorno do reforço militar enviado ao Afeganistão em 2009: 10 mil voltarão até o final deste ano e outros 20 mil retornarão até meados de 2012. Ao explicar os motivos que possibilitam diminuir o contingente, o presidente citou o êxito das ações que culminaram nas mortes dos líderes terroristas.

Se, por um lado, a morte do líder da Al-Qaeda é vista como uma vitória e um alívio para as agências americanas, novos inimigos e desafios continuam a surgir. “Não há dúvidas de que a reputação manchada da CIA na última década foi reabilitada com a morte de Bin Laden, após mais de uma década de busca. Foi uma demonstração das competências da agência, que ainda são formidáveis”, afirmou Riedel. “A morte de Bin Laden foi um golpe para a Al-Qaeda, mas ela ainda não foi derrotada ou destruída, e a agência terá de continuar em alerta.”

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