Minha vida é o 11 de Setembro, diz ex-bombeiro que resgatou corpo de filho

Ao iG, presidente de associação que reúne famílias de vítimas relembra trabalho no Marco Zero e fala sobre luta para que ataque não seja esquecido

Luísa Pécora, enviada a Nova York |

A experiência de 38 anos como bombeiro e de combate na Guerra do Vietnã (1959-1975) não foi suficiente para preparar o americano Lee Ielpi para a missão mais difícil de sua vida. Exatos três meses após os ataques do 11 de Setembro , ele carregou para fora do Marco Zero o corpo de seu filho, Jonathan, 29 anos, bombeiro morto no colapso da Torre Sul do World Trade Center (WTC).

Os ataques terroristas que mudaram a história contemporânea também alteraram radicalmente a vida de Ielpi, que em 2001 aproveitava a aposentadoria para viajar, pescar e cuidar do jardim. “Tudo isso deixou de existir”, afirmou ao iG em seu escritório em Nova York. “Minha vida é o 11 de Setembro.”

Luísa Pécora
Ielpi posa em frente ao mapa no qual marca países cujos cidadãos já visitaram o Tribute WTC Visitor Center

Da janela do oitavo andar de um prédio na rua Cortland, em Manhattan, ele usa um pequeno binóculo para acompanhar, dia a dia, o progresso das obras no Marco Zero (onde ficavam as torres do WTC). Se alguns americanos se esforçam para esquecer a tragédia, Ielpi, 67 anos, optou por lembrar. Uma década após os ataques, ele se dedica em tempo integral às funções de presidente da Associação de Familiares do 11 de Setembro e de cofundador do Tribute WTC Visitor Center, museu que presta homenagem às vítimas.

Criado em 2004, o Tribute Center recebeu mais de 2 milhões de visitantes de 135 países e tem como objetivo educar o público sobre o impacto dos ataques e a importância do combate ao terrorismo. A base desse trabalho educacional são visitas monitoradas por 440 guias, todos integrantes da chamada “comunidade do 11 de Setembro”, que inclui sobreviventes, parentes dos mortos e integrantes das equipes de resgate.

São pessoas que, como Ielpi, ainda pensam e falam sobre os ataques com frequência. “Temos de nos preocupar com quem não consegue conversar sobre o 11 de Setembro”, disse o ex-bombeiro, que considera o trabalho no museu “terapêutico”. “Não podemos guardar tudo, não somos tão fortes assim.”

Foi uma palestra do próprio Ielpi para um grupo de crianças que deu início ao museu. Ainda hoje, quando discursa em eventos pelos EUA, ele fala com carinho do filho que seguiu seus passos e de todos os bombeiros, policiais, paramédicos e demais profissionais que perderam ou arriscaram suas vidas no dia dos ataques. “Jonathan morreu fazendo o que amava”, garantiu.

Tradição familiar

A admiração de Ielpi pelos bombeiros começou na infância. Aos 9 anos ele já observava, fascinado, a movimentação em um departamento de voluntários perto de sua casa em Great Neck, Long Island, no Estado de Nova York. “Deve ser divertido andar por aí nesse caminhão vermelho”, pensava.

Em 1963, aos 19 anos, Ielpi passou a integrar o corpo de voluntários de Great Neck e, em 1970, tornou-se bombeiro profissional pela cidade de Nova York. A paixão pelo trabalho era tamanha que contaminou seus dois filhos homens, Jonathan e Brandon, hoje com 34 anos (Ielpi também é pai da professora Annemarie, 42, e da dona de cada Melissa, 32).

Um acidente de trabalho o levou a uma prematura aposentadoria em 1996, aos 52 anos. Mas Ielpi permaneceu bem informado sobre o que acontecia no corpo de bombeiros graças a Jonathan, que telefonava para o pai de cinco a seis vezes ao dia, geralmente para relatar algum grande incêndio. “Ele ligava e dizia: ‘E aí, pai, o que está acontecendo?’ E eu respondia: ‘Olha, filho, na verdade não mudou muito desde que você ligou da última vez’”, contou Ielpi, sorrindo. “Mas mesmo assim ele ligava, sempre.”

Sem esconder a saudade dos telefonemas diários, ele recorda com carinho do último, na manhã de 11 de Setembro. “Foi uma daquelas ligações que ficam com você para sempre”, afirmou Ielpi, que usa no braço direito uma pulseira de prata com o nome do filho. “Foi a última vez que falei com Jon e vou guardar isso comigo.”

O telefonema foi rápido. Jonathan pediu que o pai ligasse a televisão, pois um avião havia batido na Torre Norte do WTC. Ielpi atendeu ao pedido, viu as imagens e só teve tempo de dizer uma breve mensagem ao filho, cujo pelotão fora acionado para ir ao local: “Tenha cuidado, Jon.”

‘O dia não vai ser bom’

Brandon, que tinha começado a carreira de bombeiro havia apenas quatro meses, também soube da notícia e foi até a casa do pai. Em frente à televisão ligada, os dois decidiram ir até Manhattan para ajudar no que pudessem. Enquanto se preparavam para sair, assistiram, impressionados, às imagens do segundo avião batendo na Torre Sul do WTC. Consternado, Ielpi teve a certeza de que algum tipo de ataque estava acontecendo.

Cortesia doTribute WTC Visitor Center
Jonathan Ielpi, filho de Lee, era bombeiro e morreu no colapso da Torre Sul do World Trade Center, aos 29 anos

O caminho entre Great Neck e Nova York foi, segundo ele, “surreal”. Pelo rádio do carro, Ielpi ouvia gritos e relatos sobre o colapso das torres que não pareciam fazer sentido. Durante a carreira ele tinha visto muitos desabamentos parciais causados por incêndios, mas nunca o de um prédio inteiro – muito menos o de um edifício como o WTC.

Brandon dirigiu até onde pôde e depois se juntou aos integrantes de seu pelotão. Ielpi seguiu a pé ao lado de um amigo, e cerca de três quarteirões ao norte do local das torres avistou a primeira das dezenas de vítimas que veria naquele dia: um bombeiro. Os dois homens trocaram olhares, mas não disseram nada. Encontrar um corpo tão longe do local do ataque não poderia ser bom sinal.

Quando chegou mais perto, Ielpi testemunhou o que ouvira no rádio: a Torre Sul tinha desabado e a enorme quantidade de poeira e fumaça sugeria que o mesmo acontecera com a Torre Norte. Não houve tempo para entender o que tinha acontecido. Após conversar com autoridades que coordenavam o trabalho, ele rapidamente começou a fazer o que outros milhares faziam: procurar vãos ou buracos entre os escombros em que alguém pudesse estar preso esperando por resgate. “Éramos como um bando de formigas.”

Eu mantinha os dedos cruzados, mas logo entendi que o dia não seria bom para muita gente, especialmente para os bombeiros. Eu sabia que o dia não ia ser bom para o Jonathan

Não demorou muito para que Ielpi percebesse que sua missão tinha mudado de ajudar desconhecidos para encontrar o próprio filho. “Havia muita gente perguntando: ‘Você viu meu pai?’, ‘você viu meu filho?’, e a resposta era sempre não”, contou. “Eu ainda mantinha os dedos cruzados, mas logo entendi que o dia não seria bom para muita gente, especialmente para os bombeiros.”

“Eu sabia que o dia não ia ser bom para o Jonathan”, completou.

Busca

Ielpi decidiu não telefonar para a família, mas pediu que alguns amigos fossem confortar a mulher e as filhas, ainda que sem dizer nada. Enquanto buscava sobreviventes entre os escombros, ele evitava pensar no momento em que teria de voltar para casa.

Ao abrir a porta, por volta das 23h, encontrou um cenário que descreveu como “caótico”. “Todos choravam e me olhavam com incredulidade”, afirmou. “Eu só podia dizer que voltaria no dia seguinte e torcer para encontrar Jonathan ou qualquer outra pessoa viva.”

O ex-bombeiro cumpriu a promessa e voltou ao local na manhã seguinte e praticamente todos os dias durante nove meses. Ele nunca encontrou alguém vivo.

Durante as semanas que passou ajudando a retirar corpos dos destroços, ele se convenceu de que Jonathan seria enterrado algum dia. “Não admitia outra possibilidade. Simplesmente me concentrei no pensamento de que iríamos achá-lo”, contou.

As estatísticas não eram animadoras. Até hoje, apenas 1.629 das 2.753 vítimas dos ataques do 11 de Setembro foram identificadas . Nos meses que passou trabalhando como voluntário no Marco Zero, Ielpi esteve ao lado de outros sete pais que procuravam seus filhos. Entre os integrantes do grupo, apelidado de Band of Dads (o bando dos pais), ele se considera como o que teve mais sorte: foi o único a levar para casa o corpo praticamente inteiro de seu filho.

Ritual

Na noite de 11 de dezembro de 2001, por volta das 23h, o telefone tocou. Era o chefe da operação de busca noturna, pronunciando as palavras que Ielpi esperou por três meses: “Lee, nós temos o Jon.”

Enquanto Ielpi e Brandon dirigiam até Manhattan, no Marco Zero espalhava-se a notícia de que os restos mortais de um bombeiro seriam retirados do local. Com cuidado, integrantes das equipes de resgate colocaram o corpo de Jonathan em uma maca, cobriram-no com uma bandeira dos Estados Unidos e esperaram por seus familiares.

Ielpi e Brandon chegaram por volta da meia-noite, quando bombeiros, policiais e todos os demais presentes já faziam uma longa fila do topo da pilha de destroços onde o corpo estava até a rua mais próxima, acompanhando toda a extensão de uma das duas trilhas usadas para entrada e saída do Marco Zero.

Após o sinal de um bombeiro, Ielpi e Brandon levantaram o corpo e o carregaram pela trilha, passando por cada um dos profissionais que os saudavam em silêncio. Ao fim do caminho, um capelão disse algumas palavras e o corpo foi colocado na ambulância que seguiu para o instituto médico.

Durante o ritual, todas as máquinas permaneceram desligadas. Com exceção do capelão, ninguém disse uma única palavra. “Tudo parou”, recordou Ielpi. “O silêncio era tanto que você ouviria um alfinete cair.”

Eu trabalhei em um dos corpos de bombeiros mais movimentados do país, integrei uma força especial do Exército durante a Guerra do Vietnã, vi e fiz coisas que ninguém deveria ter de ver ou fazer. E nada disso me preparou para o 11 de Setembro

Mas nem sempre era assim. Se os resgatistas encontravam uma parte de corpo muito pequena, apenas a colocavam em um saco vermelho, registravam o local do resgate com auxílio de um GPS e o levavam até a ambulância de forma respeitosa, mas sem solenidade. Mais de 21,8 mil pedaços de ossos, cartilagem, órgãos e pele foram encontrados durante os trabalhos de busca. “Não havia como parar o trabalho todas as vezes”, justificou Ielpi, entregando a emoção na voz embargada.

Ao perceber que a repórter se esforçava para controlar as lágrimas, Ielpi sorriu e deixou cair as suas. “Faço isso todos os dias”, afirmou, com tranquilidade. “Agora imagine como era difícil para quem trabalhava aqui. Nenhum desses homens e mulheres tinha feito isso antes. Nada poderia prepará-los. Eu trabalhei em um dos corpos de bombeiros mais movimentados do país, integrei uma força especial do Exército durante a Guerra do Vietnã, vi e fiz coisas que ninguém deveria ter de ver ou fazer. E nada disso me preparou para o 11 de Setembro.”

“Como você explica essas milhares de partes de corpos para os homens e mulheres que trabalharam aqui todos os dias?”, indagou retoricamente. “Não dá.”

‘Eles o pegaram’

Antes de o trabalho de resgate de corpos ter sido encerrado, Ielpi já estava certo de que queria participar ativamente da associação de familiares das vítimas. Uma de suas principais batalhas é pôr um currículo específico sobre o 11 de Setembro nas escolas americanas, algo que ainda não foi adotado por nenhum Estado.

“Quero ter certeza de que todos entendem o que aconteceu aqui: as pessoas foram assassinadas”, afirmou, apontando para o Marco Zero. “Não podemos esquecer o que aconteceu e não podemos deixar que isso se repita.”

Durante as visitas guiadas, os profissionais do Tribute Center buscam transmitir mensagens de tolerância – e não ódio – ao público. Mas Ielpi não esconde a satisfação que sentiu ao ser informado pela mulher do assassinato de Osama bin Laden , em maio deste ano. O ex-bombeiro estava em um trem e, após desligar o telefone, começou a chorar. “Me senti extasiado, satisfeito, feliz”, admitiu.

Pela janela do trem, Ielpi olhou para o céu e disse, baixinho: “Eles o pegaram.” “Era como se estivesse falando com alguém”, explicou, sorrindo. “Talvez com meu filho.”

Assista ao vídeo sobre o Tribute WTC Visitor Center:

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