Exposição mostra impacto do 11 de Setembro em Nova York

Mostra da Sociedade Histórica da cidade aborda tragédias pessoais causadas por ataques, mas não sua repercussão global

The New York Times |

Dez anos depois, o diabo ainda está nos detalhes. E nós podemos vê-lo várias vezes na exposição "Lembrando o 11 de Setembro", em cartaz na Sociedade Histórica de Nova York desde quinta-feira.

As imagens ainda transmitem a sensação dos acontecimentos: as torres do World Trade Center (WTC) expelindo fumaça; as camadas de poeira, papel e pele humana cobrindo uma fileira de bicicletas abandonadas; bombeiros exaustos e policiais controlando o seu próprio medo para salvar os outros; espectadores olhando para o alto, com as mãos sobre as bocas, chocados; o túnel Holland deserto; pilhas de hidrantes em ruínas; um tubo de ensaio de um especialista forense contendo um único dente.

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A exposição "Relembrando o 11 de Setembro", que ficará em cartaz na Sociedade Histórica de NY até o dia 18

Vemos imagens dos santuários que pareciam brotar em qualquer espaço público da cidade, com velas, poemas, fotografias e pedidos: "Pessoa Desaparecida", "Por favor ligue", "Você viu meu pai?".

Um aviso anuncia: "Desaparecidas Duas Gêmeas Bonitas" - a ilustração mostra uma imagem fantasmagórica das duas torres.

A curadora da exposição, Marilyn Satin Kushner, explicou em uma entrevista que, além de incorporar imagens de Washington e de Shanksville, na Pensilvânia, essas 135 fotografias foram selecionadas aleatoriamente das 6,5 mil recolhidas nos meses após os ataques e exibidas em duas lojas de pequeno porte no Soho. Na época, a exposição foi chamada de "Aqui está Nova York: Uma Democracia de Fotografias".

Solicitadas e não solicitadas, sem assinatura, sem data e não identificadas, algumas impressas em impressoras de jato de tinta, estas imagens da vida de uma cidade ainda exercem um impacto poderoso.

Elas parecem se sobrepor umas as outras, cada uma adicionando uma memória à outra, como impressões imediatas de choque. A coleção original também incluiu depoimentos em primeira pessoa em áudio e vídeo.

A mais ampla seleção de imagens também será mostrada em uma exposição gratuita no lobby do prédio localizado no número 195 da Broadway, perto do Marco Zero (o local onde ficavam as torres) até o dia 18 de setembro.

Algumas imagens serão permanentemente expostas em um nova galeria da sociedade histórica, quando a sua construção estiver totalmente finalizada e suas portas forem abertas no dia 11 de novembro, após uma extensa renovação e remodelação. Por enquanto, a exposição gratuita está em um pequeno espaço e dispõe de um corredor apertado.

Quatro anos atrás, quando a Sociedade Histórica de Nova York mostrou uma versão completa dessas fotografias, parecia sugerir que o 11 de Setembro ainda era algo a ser lembrado ao invés de interpretado, que só poderia ser invocado como uma série de memórias traumáticas, não como um evento histórico para ser compreendido e contextualizado.

Surpreendentemente, não houve grandes mudanças para o 10º aniversário dos ataques, seja neste ou em muitos outros eventos previstos para esta semana. Os detalhes particulares da dor ainda sobrepõem-se em relação a qualquer sentido público, algo peculiar dada a dimensão do evento e suas consequências.

Mas estes detalhes ainda são poderosos por si mesmos. Logo após os ataques, Kenneth T. Jackson, então presidente da sociedade, estabeleceu a meta de coletar material associado ao 11 de Setembro. Assim, esta exposição também tem objetos de santuários improvisados, além de cartazes ainda cobertos com gotas de cera das velas que foram acesas em homenagem às vítimas. Também são exibidas cartas de crianças e desenhos doados pelos bombeiros e pela polícia, que mostram tocantes expressões de franqueza e sinceridade enviadas para Nova York de todos os cantos do país e também do exterior.

A exposição inclui uma seleção dos "Retratos da Dor", páginas publicadas no The New York Times nos meses após o 11 de Setembro (a cada dia, o jornal oferecia breves e pungentes histórias de vidas perdidas). Trinta e quatro páginas são montadas e reproduzidas em duas telas de vídeo que percorrem lentamente a coleção completa destes retratos.

Novamente, detalhes contam a história: desenhos do bombeiro que gostava de ensinar as crianças sobre segurança (Raymond R. York), o designer de software da Índia que trabalhava em um projeto em Nova York que duraria três meses (Shreyas Ranganath), a gerente de contabilidade que um ano antes se formou na escola noturna Queens College, enquanto trabalhava em dois empregos (Del-Rose Cheatham), o corretor de seguros que desde que completou 13 anos sonhava em se mudar para Nova York vindo de Williamsburg, Virgínia (Blood Rick). Lemos sobre casamentos programados e celebrações que nunca foram concretizadas, paixões fervorosas que foram interrompidas, conversas inacabadas. As mortes são vistas como páginas que formavam uma vida e, de repente, foram brutalmente rasgadas.

O impacto de todo este material é poderoso. Mas é estranho que mesmo depois de uma década, o escopo de lembrança não se estenda a uma interpretação mais ampla. Esta exposição não está sozinha: o aniversário é amplamente marcado por incerteza, ambiguidade e culpa.

Como esta exposição seria diferente se estes milhares de mortos tivessem sido exterminados em um tsunami como o que atingiu o Japão no início deste ano? O quê, nessas imagens, objetos e histórias haveria sido diferente se a causa tivesse sido um terremoto que simplesmente engoliu as Torres Gêmeas? Onde está o sentido de que este não foi um ato de Deus, mas um ato do homem? E que foi um ataque, e não simplesmente uma calamidade? Mesmo os esboços do memorial em homenagem às vítimas feitos pelo arquiteto Michael Arad, que também estão presentes na exposição, são meditativos, abstratos e focam nas lacunas deixadas pela destruição.

Vemos apenas algumas pistas de que o 11 de Setembro não foi um ato de Deus: uma fotografia mostra um aviso sobre a brutalidade doméstica contra muçulmanos americanos (que nunca se envolveram na polêmica além de casos isolados que foram rapidamente condenados), outra mostra um protesto contra qualquer contra-ataque precipitado. "Nossa dor não é um grito de guerra", diz uma placa segurada por três manifestantes.

Desde o início, como essas imagens sugerem, houve uma espécie de precipitação sobre as implicações do ataque, um impulso agora amplificado pelos erros de julgamento cometidos durante a última década.

Será que é esta indefinição que o prefeito Michael R. Bloomberg visa resolver ao não convidar resgatistas e religiosos para se juntar a ele na comemoração dos dez anos dos ataques neste domingo, mas, sim, convidando membros da família das vítimas? Isso elimina dois grupos que claramente deram ao 11 de Setembro um significado público mais amplo. Ouça na exposição a história de um encontro com um sacerdote descrito por uma sobrevivente, Joanne Capestro, que conta que quase não conseguiu sair de uma das torres. Assim que saiu, ela viu pilhas de corpos dos que pularam espalhados pelo chão em sua frente. Quando a torre entra em colapso, ela se atira debaixo de um carro nas proximidades, onde um padre dá conforto a ela.

Mas a ênfase da cerimônia nos familiares está de acordo também com as sensações particulares transmitidas por esta exposição. Relembramos o 11 de Setembro, ao que parece, como um acúmulo de tristezas pessoais, nada além disso. Há quase uma decisão de evitar, de virar a cabeça, de dar apenas um reconhecimento passageiro aos sentimentos religiosos que oferecem compaixão e conforto (basta olhar para todos os pingos de cera das velas) e ignorar completamente o ódio religioso que esteve por trás dos ataques (que é invisível aqui e provavelmente será deixado de lado no domingo).

Logo após o 11 de Setembro, parecia que a enormidade da experiência iria minar as doutrinas do relativismo pós-moderno que geralmente afirmam que não existe qualquer julgamento em particular que tenha algum tipo de prioridade sobre outro, e poria fim também ao conceito quase reflexivo que coloca constantemente o ocidente como vilão. Mas será possível que esses impulsos tenham apenas crescido, mudado e, dada a força dos acontecimentos da última década, nos impeçam da ousadia de comemorar e compreender ao invés de simplesmente recordar?

Por Edward Rothstein

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