Documentário narra recuperação após os ataques do 11 de Setembro

"Rebirth" acompanha cinco pessoas cujas vidas foram alteradas pelo atentado para mostrar como se recuperaram e seguiram em frente

The New York Times |

Havia corpos caindo na rua, lembra o homem de cavanhaque. A mulher de cabelos curtos, com o rosto coberto por cicatrizes, diz que era possível sentir o calor que chegava até a janela. Um adolescente, com os olhos cheios de dor, conta: "Lembro de tremer, As minhas pernas tremiam e tremiam".

Estes são os primeiros momentos de "Rebirth" ("Renascimento", em tradução livre), um documentário sobre a trajetória de cinco pessoas cujas vidas foram despedaçadas pelos ataques do 11 de Setembro de 2001. Em meio às peças de teatro, documentários, novelas e outras obras de arte criadas com base nos acontecimentos daquele, "Rebirth" destaca-se por captar o que aconteceu depois, ao longo de muitos anos. Trata-se de um registro da recuperação – sem narração, imagens gráficas ou opiniões de especialistas - que acerta ao tratar a situação com a poesia de emoções profundas.

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Jim Whitaker, diretor de "Rebirth", filma no Marco Zero, em Nova York

"Rebirth", que foi lançado nos cinemas americanos na sexta-feira e será transmitido em 11 de Setembro pelo canal Showtime, foi dirigido por Jim Whitaker. Ele é melhor conhecido como um executivo da indústria cinematográfica, pois foi presidente da Imagine Entertainment, onde atuou como produtor executivo de filmes como "8 Mile" e "A Troca", e agora é presidente da Whitaker Entertainment, que produz filmes para a Disney. Mas ele começou sua carreira fazendo documentários para arrecadar dinheiro para organizações sem fins lucrativos.

"Esse filme, para mim, é sobre o dia seguinte, sobre como seguir em frente e sobre a esperança, a resistência", disse Whitaker, que conduziu todas as entrevistas do filme entre 2002 a 2009. Ele teve a ideia ao visitar o Marco Zero, local onde ficavam as Torres Gemeas, alguns meses após a morte da sua própria mãe.

"Havia uma certa liberdade em não ter uma noção pré-determinada de para onde estava indo e como as histórias de cada personagem iriam terminar", disse Whitaker, 43. "Acreditava que se pudesse captar o que elas estavam sentindo, isso por si só seria bastante dramático."

E é. Ling Young, a mulher com o rosto coberto por cicatrizes, sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau no rosto e no corpo quando o avião atingiu a torre do World Trade Center, onde ela trabalhava para a Secretaria de Tributação e Finanças do Estado de Nova York.

Tanya Villanueva Tepper, que possuía uma loja de presentes no Queens chamada Interior Peace (Paz Interior, em tradução literal) perdeu o seu noivo, um bombeiro de Nova York, nos ataques do 11 de Setembro, enquanto Brian Lyons, um trabalhador da construção civil, perdeu seu irmão mais novo, também bombeiro.

Nick Chirls era um estudante do ensino médio quando sua mãe, que trabalhava no World Trade Center, morreu no ataque. Tim Brown, outro bombeiro, correu para as torres naquele dia, mas sobreviveu para contar a história, ao contrário de seu melhor amigo, também bombeiro, e dezenas de seus colegas.

O documentário segue ao som da trilha sonora de Philip Glass e entre cortes que intercalam a narrativa entre as personagens, mas identifica os participantes por seus nomes completos apenas no final, após os créditos.

"É intencional", disse Whitaker. "Queria eliminar todas as barreiras para que o público conseguisse se conectar. Queria que eles vissem pelo menos uma dessas histórias como possivelmente a sua própria."

Os espectadores observam as cinco pessoas muito diferentes passarem por novos casamentos e filhos, brigas familiares e estresse pós-traumático. A câmera vai de festas de casamentos até salas de operação e enterros, passando por cenas de vídeos caseiros que registram eventos como festas de aniversário.

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Tanya Villanueva Tepper e seu marido, Ray, com um de seus filhos em cena do documentário "Rebirth"

Para alguns dos participantes, o filme foi terapêutico. Foi também uma forma de ajudar a moldar o registro histórico de sua luta. "Eu sabia que precisava dizer isso para as gerações futuras", disse Brown, o bombeiro agora aposentado. "Quando me encontrei com Jim aceitei imediatamente, pois ele é um ser humano maravilhoso. Ele se tornou um terapeuta para nós. Ele era tão bom, tão sem julgamento, só queria conversar."

Brown, que é solteiro e tem 49 anos de idade, disse que participar de "Rebirth" foi difícil e que hoje lamenta ter compartilhado algumas coisas de sua família. Mas ele está convencido de que o filme vai ajudar os outros a entender a dor da recuperação.

Tepper disse que participou porque tinha medo que as pessoas seguissem em frente depois do 11 de Setembro, como se nada tivesse acontecido. Ela muitas vezes chora enquanto tenta dar sentido a uma vida sem Sérgio, seu noivo, e voltar a namorar. Ela finalmente se casou e, aos 43 anos, vive em Miami com o marido, o empreiteiro Ray Tepper, e suas duas filhas pequenas.

Sua maior surpresa, disse ela, é ter conseguido um final feliz. Ao assistir "Rebirth", ela foi impactada pelas maneiras diferentes com que as pessoas sofrem e como lidam com isso. "Aprendi que eu posso muito bem lidar com qualquer coisa”, afirmou.

Em parte, as personagens de "Rebirth" – encontradas principalmente através da imprensa e do boca a boca – foram escolhidas por sua capacidade de se comprometer com um projeto de longo prazo e abrir sua vida para as câmeras.

Whitaker disse que também tentou encontrar um equilíbrio para sustentar uma conexão por meio de entrevistas sem barreiras, que duravam cerca de cinco horas, a maior parte realizada no aniversário do 11/09. Ele começou com 10 participantes, mas uma desistiu. Na edição de centenas de horas de filmagens, escolheu se concentrar em cinco indivíduos. Oito são incluídos em um livro que acompanha o filme.

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Ling Young, uma das "personagens" do documentário "Rebirth"

Além das entrevistas, "Rebirth", que teve sua estreia no Festival de Sundance, em janeiro, também utiliza cenas filmadas por várias câmeras espalhadas perto Marco Zero desde 2002 para documentar a reconstrução do local. Quatorze câmeras permanecem posicionadas ao redor e dentro do local. O documentário "Rebirth" e outras criações da equipe responsável serão alojados no memorial e museu do Marco Zero.

O projeto sem fins lucrativos de “Rebirth” foi criado para apoiar o filme e o desenvolvimento de treinamento de preparação pré-trauma para profissionais de resgate. O conselho de administração arrecadou US$ 9,4 milhões, cerca de metade em contribuições de serviços e materiais, como os filmes doados pela Kodak. O filme foi exibido para terapeutas, acadêmicos e profissionais de resgate.

No final de "Rebirth" os entrevistados oferecem algumas ideias sobre como superar a dor e agradecer pelo que ainda têm. Ou como diz Young: "Aconteceu, mas estou vivo."

Por Felicia R. Lee

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