Detalhes de áudios inéditos revelam 11 de Setembro em tempo real

Documento feito pela Comissão 11/09 contradiz relatos de oficiais do alto escalão do governo logo após atentados

The New York Times |

Por um breve instante na manhã de 11 de Setembro de 2001, um avião que havia desaparecido de todas as redes de monitoramento tornou-se, de repente, visível para aqueles que tentavam encontrá-lo. Isso aconteceu pouco depois das 9 horas, 16 minutos após uma aeronave atingir a Torre Norte do World Trade Center (WTC), quando uma transmissão de rádio entrou no ar no centro de controle de tráfego aéreo de Nova York.

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Fumaça sai das Torres Gêmeas do World Trade Center após a colisão dos dois aviões sequestrados por terroristas. Nova York, 11 de Setembro de 2001.
"Ei, você pode olhar pela janela agora?", disse o interlocutor.

"Sim", disse o gerente de controle de radar.

"Você consegue ver um cara a cerca de 1.219 metros, a leste do aeroporto, olha como ele..."

"Sim, eu o vejo", disse o gerente.

"Você vê aquele cara? Olha, ele está descendo para o edifício também?", perguntou o interlocutor.

"Ele está descendo rápido demais, sim", disse o gerente. "1.371 metros agora, ele desceu 243 metros de uma vez."

"Que tipo de avião é aquele, vocês conseguem ver?"

"Não sei, vou ler em um minuto", disse o gerente.

Não houve tempo para ler as informações.

No fundo, era possível escutar gritos: "Outro avião atingiu o edifício. Uau. Outro avião bateu com toda força. Outro avião atingiu o World Trade."

"O prédio inteiro foi dividido", disse o gerente. 

Esse momento faz parte de uma crônica recém-publicada pela aviação civil e militar como resposta para os sequestros, que foi originalmente preparada por investigadores da Comissão 11/09, mas nunca concluída ou divulgada anteriormente.

Entrelaçada em narrativas vivas que cobrem cada um dos quatro aviões de passageiros, o documento multimídia contém gravações de 114 controladores de tráfego aéreo, oficiais da aviação militar, companhias aéreas e pilotos de caças, bem como de dois dos sequestradores, que se estende ao longo de duas horas daquela manhã de setembro.

Embora alguns dos áudios tenham sido divulgados ao longo dos anos , principalmente por meio de audiências públicas e de um julgamento criminal federal, o relatório fornece uma visão mais ampla e rara dos acontecimentos que se desenrolavam em alta velocidade nos céus e na terra. Esta semana, o documento completo, com as gravações, foi publicado e divulgado pela primeira vez pelo jornal Rutgers Law Review, da Escola de Direito Rutgers, e trechos do livro estão disponíveis online no nytimes.com.

"A história do 11 de Setembro em si é mais bem contada pelas vozes que narraram o próprio 11 de Setembro", disse Miles Kara, um coronel do Exército aposentado e investigador da comissão que estudou os acontecimentos daquela manhã.

A maioria dos trabalhos sobre o documento – que membros da equipe da comissão chamam de "monografia de áudio" – foi concluída em 2004, não a tempo de passar por uma longa revisão legal perante a comissão que foi encerrada em agosto daquele ano.

No início deste ano, Kara rastreou os arquivos eletrônicos originais no Arquivo Nacional e terminou de rever e transcrever o seu conteúdo com a ajuda de estudantes de Direito e John J. Farmer Jr., reitor da Escola de Direito Rutgers, que trabalhou como consultor sênior para a comissão.

Em audiências entre 2003 e 2004, a Comissão 11/09 usou algumas das gravações e disse que os controladores civis e militares improvisaram respostas a ataques para os quais não foram treinados. Às 9h, um gerente de controle de tráfego aéreo em Nova York ligou para a sede da Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês), em Herndon, Virgínia, tentando descobrir se os agentes da aviação civil estavam trabalhando com os militares.

"Você sabe se alguém lá está coordenando qualquer coisa para descartar os aviões tipo caça?", o gerente perguntou, continuando: "Temos várias situações acontecendo aqui, está piorando e piorando muito, e precisamos envolver os militares."

Um avião já havia se chocado contra a Torre Norte do World Trade Center. Outro tinha sido sequestrado e estava a segundos de bater na Torre Sul. Na sede da FAA, nem todos sabiam da situação.

"Por quê? O que está acontecendo?", perguntou o homem em Herndon.

"Apenas me trasfira a alguém que tenha a autoridade de colocar os militares no no ar, agora", disse o gerente.

Em seu relatório de 2004, a comissão elogiou os funcionários da linha de frente da aviação. Mas depois desmantelou completamente os relatos de oficiais de alto escalão do governo, que nas semanas após o 11 de Setembro e por mais de um ano depois, asseguraram ao público que pilotos de caça estavam perseguindo os sequestradores suicidas. Durante essas buscas da FAA e do Departamento de Defesa, de acordo com os relatos do vice-presidente Dick Cheney, os pilotos estavam prontos para cumprir uma ordem violenta do presidente George W. Bush para derrubar aviões civis.

A comissão descobriu que pouco disso era verdade: dos quatro voos, os comandantes militares receberam avisos referentes a um deles nove minutos antes da colisão com o WTC, mas não souberam quais outros três haviam sido sequestrados até depois dos atentados. Após receber a ordem fora da sua cadeia de comando para abater aviões sequestrados, comandantes militares não as transmitiram para os pilotos de caça, mas pediram que os números de cauda de qualquer aeronave suspeita fossem identificados. Isso se mostrou prudente, porque, a essa altura, já não havia aviões sequestrados no ar.

O documento multimídia recém-publicado revela exatamente como as gravações contradisseram os relatos dos oficiais de alto escalão.

Ao longo dos áudios, os ouvintes também obtiveram uma sensação visceral da corrida desesperada por informações, bem como da confusão e da falta de coordenação entre as autoridades da aviação civil e militar. Um exemplo foi um diálogo que começou às 9h34.

Um oficial da aviação militar, em contato com o centro da FAA de Washington para discutir a situação, descobriu para sua surpresa que um voo da American Airlines tinha desaparecido mais de 30 minutos antes. Ninguém havia informado os militares.

"Eles o perderam no radar, perderam contato com ele, perderam tudo, e não têm nenhuma ideia de onde ele está ou o que aconteceu", disse um funcionário não identificado da FAA.

O avião era um 767, disse, explicando que havia obtido suas informações do centro da FAA de Indianápolis.

"Tudo que preciso é do lat-long, a última posição conhecida do 767", disse o oficial militar.

"Bem, não sei", respondeu o funcionário da FAA. "Isso foi em Boston, Centro Indy. Mas disseram que em algum lugar, na última vez que falaram com eles, disseram que estava a leste de York. E nem sei em que Estado é isso."

O voo 77 se chocou contra o Pentágono três minutos depois.

Quase ao mesmo tempo, um comandante militar, o major Kevin Nasypany, descobriu que alguns dos pilotos de caça haviam sido enviados a leste de Washington, sobre o oceano, em busca do voo 11 da American Airlines – que havia colidido quase uma hora antes na Torre Norte do World Trade Center.

Nasypany ordenou-lhes que seguissem em direção a Washington em alta velocidade.

"Não me importo quantas janelas vocês vão quebrar", disse.

O relato publicado nesta semana não tem duas peças essenciais que permanecem restritas ou confidenciais, de acordo com Kara. Um deles é a gravação de cerca de 30 minutos do voo 93 da United Airlines, que foi derrubado no chão, depois que os passageiros tentaram invadir a cabine quando sequestradores voavam através da Pensilvânia a caminho de Washington. As famílias de alguns desses passageiros se opuseram à liberação da gravação, segundo Kara.

A outra gravação ainda sigilosa é a de uma chamada em conferência de alto escalão que começou às 9h28 e cresceu, ao longo da manhã, para incluir figuras importantes como Cheney, o secretário da Defesa Donald H. Rumsfeld e o vice-presidente do Estado Maior, o general Richard B. Myers.

A gravação foi entregue ao Conselho de Segurança Nacional. Kara afirmou que a Comissão 11/09 não tinha permissão para manter uma cópia da mesma ou sua transcrição, e os investigadores foram cuidadosamente monitorizados quando a ouviram. Kara disse acreditar que o único material realmente sensível dessa gravação eram pequenas porções que diziam respeito às disposições sendo feitas para continuar as operações do governo, caso os ataques atingissem algumas instalações ou lideranças nacionais.

"Havia um funcionário designado para se sentar com a gente, que iria parar e iniciar a fita, na minha opinião para mascarar a continuidade das operações", disse Kara.

No entanto, observou, a comissão acabou por ficar com horas e horas de gravações que inicialmente não tinham acesso ou haviam sido informada que não existia, um ponto que Farmer ecoou no prefácio ao artigo publicado no Rutgers Law Review.

Quando a comissão começou a tomar depoimentos, funcionários da aviação civil e militar disseram que "nenhuma fita havia sido feita, e nos informaram a certa altura que uma avaria técnica nos impediria de ouvi-las," escreveu Farmer. "Se não tivéssemos pressionado como fizemos – em última análise, convencendo a comissão a usar seu poder de intimação para obter as gravações – muitas das conversas fundamentais daquela manhã poderiam ter sido perdidas para a história."

* Por Jim Dwyer

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