Destino de restos mortais do 11 de Setembro causa polêmica em NY

Famílias de vítimas criticam tratamento dado a partes de corpos não identificados, repudiando ideia de que sejam armazenadas em museu

Carolina Cimenti, de Nova York, especial para o iG |

Até a metade de 2010, ossos e corpos de vítimas dos ataques às Torres Gêmeas foram encontrados nos arredores do chamado Marco Zero, onde ficavam os prédios do World Trade Center pulverizados pelos ataques do 11 de Setembro de 2001 em Nova York. Alguns foram achados em 2006 no topo de um prédio de 60 andares que ficava do outro lado da rua. Ossos também foram encontrados nos bueiros e até mesmo abaixo do asfalto de uma rua construída para o tráfego de trabalhadores do Marco Zero até junho de 2010.

AP
O Museu Nacional do 11 de Setembro (no topo, à dir.) é visto no canteiro de obras dos novos prédios em construção no local onde ficava o WTC, em Nova York (22/07/2011)
A associação Respect Humans Remains at 9/11 Memorial (Respeite os Restos Humanos no Memorial 11/9, em tradução livre) critica duramente a administração do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani em relação aos restos mortais. “O prefeito e a sua equipe estavam com pressa para limpar o Marco Zero, por causa dos turistas e dos visitantes, por isso fizeram um trabalho mal feito”, afirmou uma porta-voz da associação por e-mail.

Das 2.753 vítimas dos ataques às torres, apenas 1.630 foram reconhecidas . Os restos mortais ainda não identificados estão em uma área fora de Manhattan, mas devem voltar à região dos ataques após a inauguração do Memorial e Museu Nacionais do 11 de Setembro, que estão em construção.

Os organizadores pretendem colocar o que sobrou das vítimas em um cômodo localizado a mais de 21 metros abaixo da terra e acessível apenas pela entrada do museu. Por meio de uma pequena placa, os visitantes serão avisados de que no local se encontram os restos mortais ainda não identificados. Pela parte de trás, pesquisadores terão acesso ao material para continuar o trabalho de identificação.

Os cientistas analisam uma média de 400 amostras por dia, aplicando técnicas modernas de identificação por DNA, segundo Mark Desire, um dos funcionários do escritório de Nova York responsável pelos trabalhos. Desire disse à agência EFE que a tecnologia avançou tanto nos últimos anos que ele e sua equipe podem voltar “a verificar os restos mortais que já haviam sido examinados em 2001 e 2002”.

“As provas são quase as mesmas, mas os nossos métodos ficaram mais sensíveis com o passar dos anos. Agora somos capazes de obter amostras menores de DNA”, disse à EFE Taylor Dickinson, outro membro da equipe de investigação. Mesmo assim, não é fácil fazer a identificação. Apenas duas novas vítimas foram identificadas com sucesso desde 2008.

A grande maioria das famílias dos mortos não está de acordo com os planos da prefeitura. Elas defendem que os restos mortais fiquem completamente separados do museu, e em um lugar de fácil acesso, não sete andares abaixo do nível da terra.

Arquivo pessoal
Sally Regenhard e os filhos; Christian tinha 28 anos quando morreu no 11 de Setembro
“Se eu quiser ir lá, como se fosse uma visita ao cemitério, terei de pagar ingresso e ainda por cima enfrentar uma longa fila de turistas para poder visitar a tumba do meu irmão”, afirmou ao iG Rosaleen Tallon, uma das principais críticas do Memorial 9/11. “Além disso, é completamente obsceno que esse museu use os corpos e os restos mortais das vítimas para atrair turistas. É um crime”, disse.

A opinião é compartilhada por Sally Regenhard, cujo filho morreu aos 28 anos nos ataques . “Sinto como se estivesse perdendo Christian mais uma vez. Na primeira, não tivemos escolha, foi um ataque terrorista. Mas agora a prefeitura de Nova York tem escolha, e ela decidiu fazer algo a que as famílias se opõem. Perdemos mais uma vez o controle sobre nossas vítimas”, afirmou.

A cidade de Nova York pretende inaugurar o Memorial do 11/9 no mês de setembro, com duas piscinas retangulares com a dimensão e lugar exatos onde ficavam as Torres Gêmeas. Nelas estarão inscritos em bronze os nomes dos mais de 2.750 mortos, ao lado do museu em memória das vítimas, que deve ser inaugurado até o fim deste ano.

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