Ataques do 11 de Setembro formaram geração específica de muçulmanos

Enquanto alguns jovens que vivem nos EUA escolheram se afastar da religião, outros lutam pelos direitos da comunidade islâmica

The New York Times |

Remziya Suleyman dificilmente notou a chuva que caía em abril, enquanto ela se protegia sob um guarda-chuva preto em Nashville à espera do começo do comício. Ela tinha imaginado esse momento há meses, mas ficou de queixo caído quando chegaram os ônibus de Knoxville e depois um de Memphis, trazendo as primeiras centenas de muçulmanos que ficariam sob seus cuidados.

Muitos nunca tinham votado e muito menos militado. Em sua terra natal – países como Síria, Somália e Irã – protestos traziam repercussões perigosas. Mas aqui no Tennessee, um lugar por muito tempo considerado porto seguro para os imigrantes muçulmanos, eles estavam confrontando uma nova espécie de tempestade: a oposição pública às mesquitas, o aumento nos crimes de ódio e propostas de leis que eles acreditavam visar à marginalização de pessoas de sua fé.

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A ativista Remziya Suleyman atua em Nashville, no Tennesse

Então veio Suleyman. Nascida de imigrantes curdos e criado em Nashville, a ativista falante de 26 anos foi de mesquita em mesquita, dizendo a médicos, Imans e donas de casa com o dobro de sua idade que eles não podiam mais ficar em silêncio. "A geração mais velha acreditava que isso iria passar", disse ela com seu sotaque sulista. “Mas se nós não falarmos por nós mesmos, quem falará?”

"Eu cresci ouvindo que esta é a terra dos livres", acrescentou.

Suleyman pertence à geração de americanos muçulmanos que cresceram sob a sombra do 11 de Setembro. Muitos estavam se preparando para enfrentar a adolescência na época dos ataques. Alguns sofreram ridicularização na escola ou suspeitas nos aeroportos. Seus bairros sofreram quando agentes policiais invadiram mesquitas e empresas e congelaram os bens de instituições de caridade islâmicas. Seus pais e tios estavam entre as centenas de homens muçulmanos que foram presos sem mandado – milhares acabaram deportados.

Não se sabe como essa era moldou os jovens muçulmanos da América. Não há estudo acadêmico sobre esta geração, apesar da atenção dada a ela por recentes audiências no Congresso sobre a radicalização interna. Mas um grupo crescente de sociólogos, demógrafos e outros pesquisadores que estão examinando os efeitos do 11 de Setembro sobre estes jovens nota vários padrões impressionantes. Alguns muçulmanos desta geração se afastaram de sua fé, distanciando-se da sua comunidade e chegando até mesmo a mudar seus nomes.

"De certa forma, eles se tornaram a trágica experimentação do que acontece quando as pessoas passam de pertencer a não pertencer (a um grupo ou sociedade)", disse Michelle Fine, uma professora de Psicologia do Centro de Pós-Graduação da City University of New York, que estudou os jovens americanos muçulmanos.

No entanto, para outros, a última década trouxe um resultado muito diferente: um despertar espiritual e cívico. Após os ataques, os filhos de imigrantes muçulmanos se tornaram a principal linha de defesa contra um fluxo de questionamentos feitos por não-muçulmanos. Eles já estavam acostumados a ser embaixadores "de todas as coisas muçulmanas", disse Musa Syeed, 27, cineasta de Plainfield, Indiana. Mas a tarefa ganhou uma nova intensidade conforme a sua fé passou a sofrer um exame detalhado. Na busca por respostas para as complexas questões teológicas, muitos se aproximaram do Islã.

Em um novo estudo realizado pelo Abu Dhabi Gallup Center, descobriu-se que dois terços dos jovens muçulmanos americanos disseram que sua religião é importantes. Este grupo inclui um número crescente de novos convertidos, como Ify Okoye, 27, uma estudante de enfermagem de Beltsville, Maryland.

Conhecido por alguns como "Geração 11/09", Okoye e outros passaram a agir para recuperar a imagem do Islã na América, mas se viram mergulhando em águas desconhecidas. Sua comunidade carecia da coesão social e proeza organizacional de outros grupos religiosos com raízes mais profundas no país. A maioria dos muçulmanos nos EUA é imigrante de países árabes e sul-asiáticos que começaram a chegar em meados dos anos 1960. Essa classe, formada na sua maioria por profissionais, assentou de forma harmoniosa no país e ascendeu rapidamente.

Como outros imigrantes de primeira geração, eles permaneceram fora das margens da cultura americana, canalizando seus recursos para a construção de instituições próprias, como mesquitas e escolas islâmicas. "É natural que a segunda geração diga: 'Como faço para participar da sociedade além dessa bolha?'", disse Patel, presidente do Núcleo da Juventude Intereligiosa em Chicago. "Essa transição foi dramaticamente acelerada após o 11 de Setembro".

À medida que os crimes de ódio contra os muçulmanos aumentaram, inicialmente os jovens recuaram, mantendo um certo silêncio, disse Lori Peek, uma socióloga da Universidade do Estado do Colorado e autora de Behind the Backlash: Muslim Americans After 9/11 (Por Trás da Reação: Muçulmanos Americanos Depois do 11/09, em tradução livre). Mas em um estudo de muçulmanos, Peek descobriu que muitos dos indivíduos mais jovens mudaram de rumo, alterando seus planos de carreira para obter diplomas em jornalismo e ciência política em oposição às profissões escolhidas por seus pais, relacionadas à engenharia e medicina. Segundo a socióloga, eles estavam motivados por um novo desejo de se envolver na vida cívica americana – uma tendência também observada por Fine e Louise Cainkar, sociólogos da Universidade Marquette.

Esse objetivo tem se manifestado de maneiras imprevisíveis. Syeed, o cineasta, seguiu para a escola de cinema da Universidade de Nova York em 2003 com a intenção de utilizar o meio como um "instrumento contundente para a mudança". Mas, com o tempo, se cansou da narrativa "os muçulmanos também são pessoas", que veio a definir a forma como os muçulmanos americanos se apresentam em atividades artísticas ou para a mídia. Ele percebeu que a geração mais velha estava particularmente preocupada com a promoção de uma visão positiva do Islã, muitas vezes às custas de um retrato mais profundo.

"Trata-se de corrigir os estereótipos e não do que envolve o ofício em qualquer um desses meios", disse Syeed, que, em breve, completará seu primeiro filme, Valley of Saints (Vale de Santos, em tradução livre). "Eu tive que deixar isso de lado. Trata-se de contar boas histórias – histórias universais e humanas".

Nova no Islã

Ify Okoye se converteu ao islamismo enquanto olhava para o seu computador Dell. Ela estava sozinha naquela noite, na primavera de 2002, quando procurou no Google a palavra "shahada" – a declaração de fé muçulmana – e leu em voz alta a tradução das palavras árabes que passam a conversão de uma pessoa para o Islã. Não há outro Deus senão Alá e Maomé é seu mensageiro.

Okoye, então com 18 anos, não sabia que ela deveria ter testemunhas presentes. Ela morava em Montgomery Village, Maryland, com sua mãe nigeriana e cristã, e nunca havia frequentado uma mesquita. Se não fosse pelos eventos de 11 de setembro e o debate que sucedeu sobre o Islã, ela possivelmente jamais teria tido a curiosidade de ler o Alcorão. Mas depois que começou a ler o livro sagrado, não conseguiu deixá-lo de lado.

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Ify Okoye, à direita, reza no Centro Islâmico de Washington

Como muitos convertidos, Okoye passou seus primeiros anos como muçulmana em um rigoroso estudo. Em março de 2004, ela se matriculou em um seminário que permitiu o seu período formativo na religião, que definiu com detalhes intricados as vitórias militares que estabeleceram o Islã como uma força global. Ela aprendeu sobre Umm Haram, uma guerreira que morreu no campo de batalha. Em uma fé que se expressa através da ação, não haveria ato de maior sacrifício, pensou Okoye.

"Essa imagem de alguém que defende a sua religião – disposto a morrer por ela – é algo realmente

poderoso", disse Okoye, que começou a usar o nome de Umm Haram em fóruns na internet.

Fazia um ano que os Estados Unidos haviam invadido o Iraque. Na época, Okoye trabalhava na Administração de Segurança dos Transportes, na triagem de passageiros no aeroporto internacional de Baltimore.

O trabalho era uma espécie de encruzilhada entre o Islã e a América. Okoye fez amizade com as equipes de ex-militares que trabalhavam ao seu lado ao mesmo tempo em que entrava em discussões com seu supervisor sobre seu direito de usar o véu. Ela não tinha certeza do que mais a perturbava: os passageiros muçulmanos que eram sempre puxados de lado para um exame mais minuncioso ou os soldados recém-formados que partiam para o Iraque "caminhando e cheios de vida, apenas para voltar em um recipiente de madeira menor que uma caixa de sapatos", lembrou.

Okoye tinha vindo observar uma forma rígida do Islã. No seu tempo livre, ela ouvia sermões de pregadores no estrangeiro, que apelavam para os muçulmanos americanos fazerem uma escolha entre seu país e a fé: poderiam continuar a viver em um país que oprimia os muçulmanos, diziam os pregadores, ou assumir a tarefa nobre da jihad e ir em defesa de seu ummah – a comunidade muçulmana global.

Mas Okoye ainda era as duas coisas – muçulmana e americana – e a mensagem deixou de ter significado para ela. Ela se perguntava por que precisaria deixar a América para servir a sua fé? As táticas modernas de jihad violenta também a incomodavam e nisso ela não estava sozinha. Mesmo que os casos que envolvem terrorismo nacional estejam em alta recentemente, uma nova pesquisa do Pew Research Center descobriu que o número de jovens muçulmanos americanos que acreditam que um ataque suicida pode ser justificado caiu pela metade – de 26% em 2007 para 13% este ano.

Okoye finalmente voltou seu foco para uma causa local: melhores espaços de oração para as mulheres nas mesquitas locais. Os homens muçulmanos, em geral, se reúnem em locais separados, uma tradição que faz com que muitas mulheres orem atrás de divisórias escuras ou em porões lotados – espaços que Okoye chama de "caixas de penalidade”. Em 2010, ela e alguns amigos começaram o que chamam de “reuniões de reza”, inspiradas em manifestos adotados na era da luta pelos direitos civis.

Elas aparecem nas mesquitas sem aviso prévio e rezam na seção masculina. Às vezes a polícia é chamada. Em uma mesquita em Virginia no ano passado, um guarda de segurança gritou e empurrou Okoye, ela lembrou. Mas inspirada na Primavera Árabe, ela tem seguido em frente.

"Queremos colocar nossa fé em ação", disse Okoye. "Já é normal ser americano e viver, trabalhar e travar a boa luta aqui. As batalhas, as fronteiras e as questões mudaram. O desafio agora é viver aqui como uma muçulmana".

Mobilizando a Comunidade

Até o final daquele dia em abril, cerca de 1.000 muçulmanos de todo o Tennessee tinham se unido a Suleyman, chegando em uma frota de ônibus, carros e táxis conduzidos por motoristas somali.

Eles tomaram os corredores do Capitólio do Estado, onde os legisladores iriam deliberar sobre uma lei antiterrorismo que, na sua redação original, destacava a Sharia, ou lei islâmica, como uma ameaça à segurança – o mais recente esforço em um movimento nacional alimentado pela crescente antipatia com os muçulmanos. Sob críticas, os legisladores do Tennessee removeram todas as referências ao islamismo, mas líderes muçulmanos ainda achavam que o estatuto levaria a um tratamento injusto.

Usando um lenço de cabeça preto com detalhes prateados, Suleyman caminhou pelo Capitólio enquanto aconteciam as audiências, em torno de grupos de muçulmanos mais velhos, segurando rosários de reza. Ela conhecia cada pedaço destas salas. Fazia três anos que Suleyman, recém-saída da faculdade, tinha começado a trabalhar como lobista para a Coalizão de Direitos dos Imigrantes e Refugiados do Tennessee, visitando o local diariamente para se reunir com os legisladores. Ela se destacava em seu hijab. Um senador perguntou se ela era uma freira.

"Eu disse: 'Não, senhor, essa é uma religião diferente'", lembrou, rindo.

Dez anos antes, em 11 de Setembro, Suleyman estava no segundo ano da escola. Ela nunca se sentiu diferente até aquele momento, quando seus colegas começaram a falar sobre "todos os muçulmanos como terroristas." Ela escapou da espécie de trote que outros jovens muçulmanos tiveram que enfrentar, mas alguns de seus parentes foram rejeitados por empregos ou assediados no supermercado.

Essas acusações não se comparavam com o que a família de Suleyman tinha experimentado quando fugiu de bombas químicas no Curdistão para os campos de refugiados na Turquia e finalmente para Nashville, quando ela tinha 5 anos. Ela aprendeu a traduzir o inglês para seus pais em consultórios médicos e bancos, e cresceu perseguida pelo sentimento de que a comunidade imigrante não tinha representação política e legal.

Logo depois que Suleyman começou a trabalhar como lobista, os muçulmanos no Tennessee enfrentaram uma nova onda de oposição: incidentes de vandalismo, a proliferação de vídeos alarmistas e a revolta pública a respeito dos planos para construir uma mesquita em Murfreesboro. Foi lá, em outubro de 2010, que um caminhão quase tirou o carro de Suleyman da estrada enquanto ela tentava registrar eleitores.

"Em banheiros públicos, eu vejo pessoas puxarem seus filhos para longe", disse ela, "e eu penso: Sério? Será que pareço uma ameaça tão grande?"'

Suleyman e um grupo de outros organizadores logo formaram uma Equipe Muçulmana de Resposta Rápida, que realizam teleconferências e organizam mesquitas. Conforme a notícia do esforço se disseminou, muçulmanos da Flórida e de outros lugares entraram em contato com Suleyman para obter dicas sobre como mobilizar suas próprias comunidades.

O estatuto antiterrorista foi finalmente assinado em lei pelo governador do Tennessee. Mas Suleyman permanece esperançosa.

"Se nós não mostrarmos quem somos como americanos muçulmanos, então o que vai acontecer com a próxima geração?", disse. "Este é o primeiro passo. Ainda vai levar muito tempo."

* Por Andrea Elliott

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