Al-Qaeda obteve vitória tática e psicológica com 11 de Setembro

Superestimada pelos americanos, organização terrorista funcionou como substituta da ameaça comunista da Guerra Fria

The New York Times |

Muitos americanos temiam que os ataques do 11 de setembro seriam apenas o começo. Parecia possível que células da Al-Qaeda estivessem escondidas em cidades americanas. Os meios de comunicação ficaram alvoroçados com as possibilidades: um dispositivo nuclear contrabandeado detonado em um porto movimentado; antraz pulverizado nas plantações agrícolas; gás venenoso cozido com cloro roubado. Era concebível que a primeira década do século 21 iria testemunhar o assassinato a sangue frio de milhares de americanos.

E, de fato, cerca de 150 mil foram assassinados nos Estados Unidos desde 11 de Setembro. Mas não pela Al-Qaeda. Catorze foram mortas por simpatizantes da Al-Qaeda: 13 por um psiquiatra do Exército em Fort Hood, Texas; uma por um muçulmano convertido em um posto de recrutamento militar em Little Rock, Arkansas.

Como é que um inimigo determinado que executou um ataque tão devastador não conseguiu repetir o seu sucesso letal?

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Um homem em Abbottabad, no Paquistão, passa de bicicleta por um muro próximo ao complexo onde Osama bin Laden foi morto

Certamente, a agressiva resposta dos Estados Unidos no exterior e em casa foi fundamental. A Agência Central de Inteligência prendeu Khalid Shaikh Mohammed, cuja imaginação e competência em gerenciamento tornaram o 11 de Setembro possível, e, implacavelmente, eliminou a maioria dos superiores da Al-Qaeda. Um agente de fronteira em Chicago rejeitou a entrada de um jordaniano que, mais tarde, realizou um grande atentado suicida no Iraque. Agentes de inteligência britânicos e americanos frustraram um plano para explodir aviões com destino aos Estados Unidos. De última hora, o trabalho da polícia impediu um ex-vendedor de café de Manhattan de cumprir seu plano de bombardear o metrô de Nova York.

Mas outra possibilidade deve ser considerada: que os americanos e seu governo, frenéticos após os ataques do 11 de Setembro, compreensivelmente superestimaram a capacidade da Al-Qaeda.

Nesse sentido, o 11 de Setembro foi uma vitória tanto tática quanto psicológica para a Al-Qaeda. O terrorismo – que na sua origem latina significa "fazer tremer" – persiste pela passagem dos séculos, porque muitas vezes atinge seu objetivo: ele aterroriza.

Os americanos voltaram para o exemplo da Guerra Fria, experiência que ainda influenciava a formação da maioria dos adultos em 2001. A ameaça da Al-Qaeda herdou da ameaça comunista um conjunto impressionante de paralelos: uma ideologia estranha que procura impor sua vontade por meio de uma conspiração mundial, uma rede de suspeitos pertencentes a células subterrâneas dentro dos Estados Unidos, preocupações com os cidadãos desleais e aliados secretos do inimigo.

Mesmo o medo de armas nucleares foi reavivado e com ele veio a ideia da Al-Qaeda como uma "ameaça existencial" para os Estados Unidos.

Tal alarde mobilizou o governo, mas obscureceu a escala da ameaça: durante décadas, a União Soviética teve milhares de mísseis nucleares apontados a cidades americanas. Mesmo as previsões mais generosas sobre a capacidade da Al-Qaeda envolvem uma única arma nuclear roubada de alguma forma e levada para os Estados Unidos onde seria detonada.

"Nós vimos a Al-Qaeda como um pseudo-sucessor soviético e isso foi algo enganoso", disse Audrey Kurth Cronin, professor da Universidade George Mason, cujo livro How Terrorism Ends (Como o Terrorismo Acaba, em tradução livre) coloca a Al-Qaeda em uma longa história de movimentos violentos que apareceram para assustar e, em seguida, desaparecer. "Ao tratá-la como uma espécie de Estado, nós lhe demos uma legitimidade que o grupo não merecia."

Khalid Shaikh Mohammed até pode merecer o título de "mentor" do 11 de Setembro atribuído a ele pela mídia, mas ele também aprovou esquemas duvidosos como derrubar a ponte de Brooklyn com uma tocha de acetileno. Os nigerianos que tentaram derrubar um avião sobre Detroit e o ex-analista financeiro que tentou explodir a Times Square conseguiram penetrar as defesas americanas, ambos tinham sido treinados em explosivos no exterior. Mas suas bombas fracassaram. Nenhum esquema envolvendo algo nuclear ou biológico passou de conversa fiada.

Para um americano, a chance de ser morto por um terrorista de qualquer ideologia em qualquer lugar do mundo é muito pequena – cerca de 1 em 3.500.000, de acordo com John Mueller, um cientista político da Universidade de Ohio.

No entanto, a ousadia da trama do 11 de Setembro e a pura sorte de sua execução permaneceu por uma década como um argumento de que, não importa o que um especialista diga, tudo é possível. Os ataques infligiram sobre a psique americana uma espécie de transtorno de estresse pós-traumático coletivo, produzindo um nível social de hipervigilância que os soldados que retornam do Iraque e do Afeganistão conhecem muito bem.

"Diversos cenários que teriam sido considerado forçados em 10 de setembro de repente tornaram-se plausíveis", disse Brian Michael Jenkins, especialista em segurança na RAND Corporation e Universidade de San Jose, que estudou o terrorismo por 40 anos. "E havia uma mensagem bastante implacável de medo vinda de Washington".

Entre 1970 e 1978, disse ele, 72 morreram em incidentes terroristas em solo americano – cinco vezes o número de mortos em ataques jihadistas desde 11 de Setembro. "Foi um período turbulento, mas a república sobreviveu", disse Jenkins.

A resposta emocional ao 11 de Setembro foi conectada a um nível intelectual com uma narrativa alimentada tanto pela Al-Qaeda quanto por alguns comentaristas americanos: que os dois lados estavam envolvidos em nada menos do que um choque de civilizações, uma luta até a morte pela vida e pela liberdade. Essa narrativa jihadista tornava tudo o que tocava maior.

Um muçulmano que usasse a internet para aprender como derrotar o inimigo americano frequentemente encontrava apenas um "operador da Al-Qaeda" – na verdade um agente disfarçado do FBI – a seu serviço, como Mohamed Osman Mohamud fez no Oregon no ano passado. Como outros supostos terroristas, Mohamud recebeu do FBI uma bomba ersatz, que tentou detonar em uma cerimônia de iluminação da árvore de Natal em Portland, Oregon, desencadeando apenas uma explosão de cobertura da mídia.

Não-muçulmanos com ideias extremas sobre derrubar o capitalismo ou combater as minorias raciais também foram presos depois de planejar agir com violência. Mas sem o ingrediente mágico da jihad, que ligaria seus casos ao 11 de Setembro, eles têm atraído atenção modesta.

A Al-Qaeda ou seus adeptos armaram ataques em Bali, Casablanca, Madri e Londres, assim como no Iraque e no Afeganistão. Sua execução indiscriminada de civis muçulmanos fez sua popularidade cair cada vez mais no mundo islâmico, mas sua crença e seus métodos têm se espalhado para alguns países instáveis. Hoje, o ramo da Al-Qaeda no Iêmen, onde o americano Anwar al-Awlaki está escondido, é avaliado por muitos especialistas como uma ameaça maior para os Estados Unidos que o pequeno núcleo da rede no Paquistão. Até agora, duas de suas maiores tramas destinadas contra alvos americanos falharam.

Depois de anos sem que nada chegue perto do 11 de Setembro, escritores e políticos conservadores começaram a alertar sobre uma suposta "jihad invisível" para impor a sharia, ou lei islâmica, no Ocidente. As teorias anti-shariah alimentaram o clamor contra o centro islâmico proposto perto do Marco Zero, em Manhattan, no ano passado.

Então, poucos meses depois, o mundo árabe foi abalado por demandas populares não pela shariah, mas pela democracia. A Al-Qaeda encontrou-se decididamente à margem. Em maio, veio a morte de Osama bin Laden. A imagem do fundador da Al-Qaeda grisalho e segurando não uma arma, mas um um controle remoto, passou a impressão de uma rede terrorista em declínio acentuado, tornada cada vez mais irrelevante por sua própria doutrina, além das táticas brutais e imprevisíveis que adotou ao longo da história.

Refletindo sobre esses acontecimentos logo após passar de diretor da CIA para secretário da Defesa, em julho, Leon E. Panetta declarou que "estamos estrategicamente perto de derrotar a Al-Qaeda." Outros oficiais correram para refutar ou apoiar a declaração de Panetta, mas ela marcou como julgamento impressionante vindo de um homem imerso há anos na inteligência de ameaças.

Agora, com o contra-terrorismo sob a mesma pressão orçamental que todos os outros programas federais, a abordagem do cheque em branco da última década deve mudar. Cronin diz que acha que isso não é necessariamente algo ruim. "O fato de que gastamos demais e agora temos de cortar esses gastos nos forçará a ser mais estratégicos", disse, avaliando o risco com calma e não histeria.

A resposta emocional ao choque sem precedentes do 11 de Setembro era inevitável, disse Cronin. Mas agora, "é hora de acalmar os nervos”.

* Por Scott Shane

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