Obama e o encontro de dois mundos

Barack Obama, o político que até hoje mais abriu as portas da Casa Branca para a internet, completou 100 dias de governo. Fica aquela pergunta: Obama tem realmente cumprido as promessas de campanha de usar a internet? Respondo: sim e não.

Tiago Dória, especial para o iG |

Do político que encabeçou uma das campanhas políticas que mais colocaram a internet como centro de suas operações e mais clamou pela transparência online, Obama passou a ser visto como o político 2.0 que vive num impasse, que tem dificuldades para fazer os dois mundos se encontrarem - o da velha política com uma comunicação mais fechada, e o de uma política mais aberta, em que o conhecimento dos cidadãos tem papel central.

Dessa forma, Obama acabou confirmando que uma coisa é você fazer Política 2.0″ durante a campanha eleitoral. Outra coisa é quando se está no poder.

Como quase sempre, esse impasse é melhor simbolizado nas coisas pequenas. O uso de seu celular Blackberry. Por questões de segurança e da própria burocracia, Obama foi proibido de utilizar seu smartphone, ferramenta utilizada pelo político americano para enviar torpedos e navegar na internet durante a campanha.

Somente recentemente Obama foi liberado para usar o seu Blackberry, mas uma versão personalizada do aparelho, com restrições de uso e devidamente blindado contra hackers e com criptografia aprovada e testada pela Agência Nacional de Segurança.

Nesses 100 dias de encontro entre esses dois mundos, o melhor passo de Obama no uso da internet ocorreu quando, em março deste ano, ele realizou o online town hall meeting, uma espécie de entrevista coletiva online em que cidadãos americanos podiam fazer perguntas diretamente ao presidente, e que foram respondidas ao vivo.


Obama participou de coletiva online / Getty Images

Obama não falou nada de mais nas respostas. As perguntas também não foram nada surpreendentes, mas o formato em si da coletiva abriu um interessante precedente na comunicação entre governantes e sociedade, pois, no final das contas, o presidente dispensou a imprensa como intermediária no diálogo com os cidadãos.

Para ser visto realmente como um político que abriu as portas da Casa Branca para a internet e toda a cultura de transparência política que vem junto, Obama precisa colocar mais dados sobre gastos públicos na rede. Permitir que cidadãos possam mesclar esses dados e criar as suas próprias ferramentas de fiscalização e de monitoramento.

É isso o que mais aproxima cidadãos de seus governantes - fornecer acesso público e, principalmente, fácil e legível a dados do Estado que indiquem como é o uso do dinheiro público (gastos, licitações, contratações etc.).

Algo mais relevante do que publicar pronunciamentos no YouTube, mensagens no Twitter e fazer declarações em blogs, coisas que, sem medidas de mais transparência política, só servem para impressionar leigos.

Na política, uma das principais revoluções da internet é a capacidade dos cidadãos poderem monitorar as ações dos governantes. E Obama precisa proporcionar mais desse poder à sociedade americana.

* Tiago Dória é blogueiro do portal iG e escreve diariamente sobre cultura web, tecnologia e mídia

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